Consumo & Comportamento
Comportamento do Consumidor
A Internet que Queremos de Volta
Em janeiro de 2025, um criador de conteúdo chamado Noah Simmons postou um vídeo no TikTok mostrando um dispositivo caseiro rodando num Raspberry Pi — um computador do tamanho de um cartão de crédito. O que ele tinha construído não era exatamente revolucionário em termos de engenharia. Era, na verdade, uma mini-internet offline: um espaço virtual fechado, curado, sem estranhos, sem algoritmos predatórios, sem conteúdo indesejado. Uma internet que ele criou para proteger seus sobrinhos do que ele chamou de "a epidemia de brainrot". O vídeo viralizou. Milhares de pessoas responderam querendo participar do desenvolvimento.
Publicado na plataforma em:
21/05/2026
Esse episódio não é uma curiosidade tecnológica. É um sintoma cultural. É o momento em que um consumidor comum, não um executivo de big tech, não um legislador, decidiu que o ambiente digital estava quebrado o suficiente para que valesse a pena construir uma alternativa do zero, num fim de semana, com componentes que custam menos de 50 dólares.
O que o projeto de Noah ilumina não é uma vontade de desconexão total. É uma vontade de reconexão em outros termos. Os consumidores não querem sair da internet, querem uma internet que não os trate como produto. Querem decidir o que consomem, quando consomem e com quem se conectam. E esse desejo está moldando comportamentos, mercados, políticas públicas e um ecossistema inteiramente novo de produtos e serviços. Nos próximos cinco anos, essa tensão vai definir o que significa ser um usuário digital.
A ECONOMIA DA ATENÇÃO ESTÁ EM COLAPSO MORAL
Existe um número que resume bem o estado atual da relação entre consumidores e internet: cerca de 85% dos anúncios online não passam do limiar de 2,5 segundos de atenção, o ponto crítico para que uma marca comece a se fixar na memória de alguém. Isso significa que a maioria absoluta dos investimentos em publicidade digital está sendo desperdiçada em impressões que ninguém realmente processou.
Por quê? Porque a atenção humana chegou no seu limite. O mercado global da Economia da Atenção foi avaliado em 1,2 trilhão de dólares em 2025 e deve dobrar para 2,5 trilhões até 2033. Só que esse crescimento não está sendo construído em cima de mais engajamento genuíno, está sendo alimentado por mais fricção, mais notificação, mais rolagem compulsiva. É uma bolha de volume sem profundidade.
Os consumidores perceberam isso antes das marcas. Estudos mostram que a fadiga digital compromete significativamente a capacidade dos consumidores de processar informações de marketing, reduz a satisfação com decisões de compra e aumenta comportamentos de impulsividade ou evitação. Em outras palavras: quanto mais a internet tenta capturar atenção à força, menos eficaz ela se torna, e mais as pessoas desenvolvem mecanismos de fuga, como bloqueadores, silenciamento de notificações e detox digital deliberado.

Mudita
A empresa polonesa de tecnologia minimalista lançou o Mudita Kompakt, um celular com tela E Ink em preto e branco, sem redes sociais, sem notificações de aplicativos, sem rolagem infinita. O design minimalista do produto foi reconhecido com o Red Dot Award 2025 e o iF Design Award 2025, dois dos prêmios de design mais respeitados do mundo. O produto não é um telefone "burro" — é uma declaração de valores. A Mudita foi ao CES 2026 com uma proposta que parecia quase subversiva em meio a stands de IA generativa: tecnologia que respeita o seu tempo.

Light Phone 3
O Light Phone, que existe há anos como símbolo do movimento de minimalismo digital, lançou sua terceira geração em 2025 e entrou no mainstream das conversas sobre detox digital ao lado de outros produtos como o Minimal Phone, com a imprensa especializada declarando 2025 o ano dos dumbphones. O sucesso desses produtos não é nostalgia — é recusa consciente de um modelo de negócio baseado em sequestro de atenção.

Dentsu Attention Economy Study
A agência global de mídia Dentsu publicou um estudo em 2025 demonstrando que um aumento modesto de 5% na atenção real pode levar a uma melhoria de 40% nos resultados de campanha ao longo do funil de marketing. Isso inverte a lógica da indústria: menos barulho, mais resultado. Marcas que entenderem isso antes das concorrentes vão sair na frente nos próximos cinco anos.
A INFÂNCIA VIROU O CAMPO DE BATALHA DA REGULAÇÃO DIGITAL
O projeto de Noah Simmons não surgiu do nada. Ele surgiu de uma ansiedade coletiva que está transformando legislações ao redor do mundo em velocidade sem precedente. Em junho de 2023, apenas 24% dos países tinham alguma proibição nacional de celulares em escolas. Em março de 2026, esse número chegou a 58%, com 114 sistemas educacionais tendo implementado alguma forma de restrição nacional.
A velocidade dessa mudança é reveladora. Não é gradualismo político, é pânico coletivo convertido em legislação. Em 2025, vimos uma onda crescente mundial de leis protegendo crianças dos danos do vício em redes sociais e do uso excessivo de telas, com países como Austrália, Dinamarca, França e Reino Unido liderando ou considerando proibições para menores de 15 ou 16 anos.
No lado dos dados, os números são perturbadores. Uma pesquisa Mott Poll revelou que 83% dos pais americanos acreditam que a saúde mental de crianças e adolescentes está em declínio, e a maioria aponta redes sociais, tempo de tela excessivo e segurança online como os principais problemas. Uma meta-análise da American Psychological Association publicada em junho de 2025 concluiu que quanto mais crianças interagiam com telas eletrônicas, maior era a probabilidade de desenvolverem problemas sociemocionais, incluindo ansiedade, depressão, agressividade e hiperatividade.
O mercado de proteção infantil digital está respondendo com uma categoria inteiramente nova de produtos.
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Na moda, quem age antes dos outros não precisa reagir depois.